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Tenho lido e ouvido por aí muita coisa sobre o pretenso heróico acto do Tozé. Tozé, meu conterrâneo, jogador que vi partir com pena mas compreensão - não havia lugar para ele no plantel, continuo a achar que não há - para o Estoril, sempre me granjeou simpatia. Sempre o achei um miúdo raçudo e competente, mas vi perfeitamente os jogos que fez na A no tempo de Vitor Pereira, e percebi que se fizesse a transição já, seria queimado o seu espaço no plantel principal.
Achei, e acho, que jogadores ainda não preparados devem ser emprestados para se poderem valorizar, ganhar calo da Primeira Liga, preparar-se para depois poder entrar na pista a toda a velocidade. Mas não posso deixar de fazer alguns reparos sobre a questão do Tozé.
É muito famosa a história do Eusébio em que o Eusébio se recusa a marcar um livre pelo Beira-Mar contra o benfas. Segundo o próprio, Eusébio terá dito que iria mandar a bola para a bancada e não para a baliza. Foi tido pelos benfas como um grande herói, como um gesto de grandioso amor ao seu clube do coração. No ano passado, Hulk defrontou-nos com o seu Zenit e cruzou para o golo da vitória, depois pediu imediatamente desculpa ao seu público do coração, e foi aplaudido por isso. Deco também fez parecido com o seu Barcelona.
O que tem em comum esses casos? Nenhum destes três jogadores pertencia já ao seu clube do coração, os seus direitos desportivos tinham sido já vendidos.
Não é o caso do Tozé. O Tozé é um jogador do Futebol Clube do Porto, emprestado ao Estoril. Devo dizer que sou, por princípio, contra a utilização dos emprestados contra o clube empregador. Acho mesmo que deveria ser regra. É do mais elementar paradoxo que um jogador vá contribuir para o resultado contrário aos interesses da sua entidade empregadora. Mas sendo que podem, e foram, vejamos e analisemos então o comportamento do Tozé no jogo. E atenção, não vou com isto fazer juízos de valor moral, ético, não estou a falar em traições nem coisa alguma. Factos simples.
- Quando Martins Indi lhe toca - efectivamente toca - atira-se para o chão, por lá ficando a perder tempo e a dar a entender que Indi teria cometido uma falta grave sobre ele, efectivamente tentando "sacar" um cartão, fosse de que cor fosse.
- Fabiano toca-lhe de facto, mas é ao de leve. Não lhe ceifa as pernas, não é pelo toque do Fabiano que ele se desiquilibraria. Faz-se ao penalty a um jeito "Enzeiro". "Saca-o" com mérito. Depois da cena das desculpas em frente aos Super Dragões, faz o gesto que se vê na foto em cima.
- Ao ser substituído, sai a passo para prolongar o tempo gasto de jogo. Os seus colegas de entidade empregadora tentam pedir-lhe para que ande no passo exigido pelas leis do jogo. Assim não o faz.
O Tozé tem todo o legítimo direito de pensar no seu futuro, em achar que poderá ser ter um papel central no Estoril, coisa que eu acho perfeitamente possível e provável. Terá já feito contas à vida e percebido que o meio-campo do FC Porto é densamente povoado por grande qualidade, e dificilmente poderá ser titular. Tudo isto é legitimamente devido e permitido ao Tozé. Não é, contudo, Portismo, como diz e bem o Cativo Das Antas. Não é, também, ser um "grande profissional". A entidade que lhe paga não é o Estoril Praia. Outros jogadores, por ventura com menor valia técnica, nem defrontam o FC Porto. E, já agora, de um "grande profissional" espera-se qu cumpra o Tozé aquilo que o Miguel Lima deseja.. Porque parece sempre haver uma transcendência de eficácia e de querer quando se defronta o FC Porto.
Está Tozé no seu legítimo direito de pensar nos seus interesses. Não os contesto. Assim como eu tenho o direito de achar que o seu comportamento no jogo foi tudo, mas tudo, menos Portista.
Compreendo também que o sr. Augusto Baptista Ferreira, que muito estimo e considero, ache que é um assunto inútil. Não acho. Para ser Portista não basta falar que se é. É preciso sê-lo. É preciso que as vitórias sejam amargas, os golos sejam fel. Mas esta é só a minha opinião.






