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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Espaço Z - FC Porto vs Vojvodina (37-15) - EHF Champions League

A despedida da Champions de andebol foi um jogo quase perfeito. Uma vitória clara, categórica, justíssima, com momentos duma qualidade arrebatadora, duma equipa que tudo fez para conseguir passar à próxima fase de eliminatórias. Um aplauso para o público que, não tendo enchido por completo o Dragãozinho, soube demonstrar o reconhecimento devido a uma equipa em claro crescimento, e que possui uma ligação muito especial com os adeptos que regularmente se deslocam aos seus jogos. 


Quanto ao jogo, pouco há a dizer. Uma entrada a todo o gás desfez qualquer dúvida que pudesse haver quanto à valia de cada equipa. Ainda os sérvios procuravam perceber o que lhes acontecia, e já a diferença se saldava nuns esclarecedores 9 golos. E foi no binómio perfeito "defesa-transição rápida" que o jogo se foi desequilibrando para valores pouco habituais numa competição deste calibre. Destaque para a forma muito positiva como defendemos, mas tenho que individualizar a enorme exibição de Laurentino, com uma eficácia final de 53% (uma eficácia de 40% já é considerada muito boa, para um guarda-redes). Os sérvios marcaram 15 golos, sendo que o último foi obtido aos 16 minutos da 2ª parte. Até final, nem mais um golo, e apenas um remate para fora. Quando assim é... Tudo fica mais fácil. Nota para o facto de todos os jogadores terem participado no jogo (à excepção de Quintana), e de todos os jogadores de campo terem marcado pelo menos 2 golos.

Com a vitória sofrida do La Rioja em Presov, ficámos afastados do play-off de apuramento para os 1/8 de final, mas temos de considerar esta participação com um brilho nos olhos e um sorriso nos lábios. Tivemos os nosso guarda-redes nos Top 5 de defesas mais do que uma vez, por duas vezes estivemos no Top 5 dos melhores golos, tivemos António Areia escolhido para o 7 ideal da jornada anterior e houve uma menção da EHF ao público fantástico no Dragão Caixa. Como praticante e conhecedor de andebol, sinto que vão sendo dados os passos certos para que possamos ombrear com as grandes potências da Europa num futuro próximo. E é assim, conquistando pequenas vitórias de cada vez, que nos podemos aproximar disso.

O tempo é, agora, de deitarmos esta participação para trás das costas, de fazer a equipa continuar a crescer, e de tentar limpar tudo a nível interno. Neste momento, a conquista do campeonato e da taça passam a ser as grandes ambições. 

Entretanto, na Taça de Portugal, jogada neste feriado. ganhámos ao Arsenal da Devesa, equipa da 2ª divisão nacional, por uns expressivos 40-22. Confesso que não vi, e provavelmente não vou conseguir ver o jogo. Mas deixo aqui essa nota.

Um abraço,

Z

sábado, 28 de novembro de 2015

Espaço Z - Checkovskie Medvedi vs FC Porto - Champions EHF


Por vezes, o exercício de escrever sobre a modalidade que mais me apaixona, em jogos em que participa a equipa do meu coração, deixa-me numa posição complicada. Até que ponto consigo ser suficientemente imparcial para analisar o jogo e as suas questões mais técnicas e tácticas, sabendo que são os nossos rapazes que estão em campo? Este jogo foi dos mais complicados de analisar, confesso.

Começo pelo fim: esta derrota, torna o acesso ao play-off de apuramento para os 1/8 de final praticamente impossível. Seria necessário que La Rioja ou Brest fizessem apenas um ponto nos próximos dois jogos, sendo que ambos se defrontam nesta jornada (ainda não jogaram, à hora que vos escrevo), e depois terão tarefa mais simples, à partida. Brest recebe este mesmo Checkovskie (com toda a vantagem de jogar em casa) e o La Rioja desloca-se à Eslováquia para defrontar o Presov. Esta derrota provavelmente significa "morrer na praia". 

Tenho tido a oportunidade de vos falar das expectativas reais para esta aventura da Champions, e mantenho aqui o que sempre tenho defendido: havia 3 equipas com hipóteses de passar, e a classificação final do grupo vem precisamente mostrar isso - Brest, La Rioja e FC Porto nos 3 primeiros lugares. Não seria fácil (nunca é fácil jogar a este nível), mas perfeitamente possível. 

Até parece que estou a ser crítico com os rapazes, não? Longe disso... Temos todos os motivos para estar orgulhosos desta incansável, guerreira, fantástica equipa. Não imaginam o que significa para o andebol português ter um representante na Champions, a ombrear pelo apuramento contra equipas de campeonatos muito mais competitivos, com jogadores habituadíssimos a estas andanças e, por vezes, com orçamentos superiores aos nossos. Equipas de países em que o andebol é desporto-rei, e em que se trabalha de forma incomparavelmente melhor do que alguma vez se trabalhou (ou trabalhará) em Portugal. Só assim, competindo anualmente a este nível, almejando chegadas às fases a eliminar, vamos conseguir chegar ao topo da Europa do andebol. E para isso precisamos de chegar lá mais e mais vezes, mesmo que haja dissabores pelo caminho. Precisamos também de uma competição interna mais exigente, de adversários que nos obriguem a crescer também a nível interno, para termos outro traquejo em jogos da intensidade deste (e dos outros todos deste grupo). 

Falemos então do jogo. Haverá algo a apontar à nossa equipa? Há algumas coisas, sim. E esses erros, inevitavelmente, impediram-nos de sair da Rússia com a vitoria. Grande parte deles ocorreram na transição ofensiva, durante a 2ª parte. Algumas bolas fáceis perdidas, em alturas importantes, principalmente por precipitações (lá está, a diferença que faz ter mais jogos equilibrados na competição interna. Nunca faltou vontade, nem capacidade de luta, mas faltou errar menos em alturas importantes. Foi um razoável jogo de andebol, extremamente táctico e intenso, um jogo do gato e do rato constante, em que o resultado poderia ter caído para qualquer dos lados. 

Importa referir que, do outro lado, tínhamos o campeão russo, equipa jovem mas superiormente orientada por um dos deuses do andebol, Vladimir Maximov, detentor de títulos europeus, mundiais e olímpicos à frente da selecção russa, durante a década de 90. E notou-se uma grande diferença nos russos, comparando com o jogo no Dragãozinho. Melhor defensivamente, e bastante melhor ofensivamente, criando imensas dificuldades no jogo com o pivot - um bloco de betão de de 2,02m e 105 kg sob a forma de jogador de andebol. Não terá sido por acaso que o La Rioja perdeu neste mesmo pavilhão...

Depois de uma entrada em falso, em que sofremos um parcial de 4-0, conseguimos equilibrar o marcador, e nos últimos 10 minutos da 1ª parte, foi o guardião "suplente" dos russos a fechar a baliza contrária e a impedir-nos de ir para o intervalo na frente. A este nível, encontrar bons guarda-redes é absolutamente normal.

Maximov demonstrou toda a sua capacidade de análise neste período, percebendo onde estava a fragilidade defensiva do Porto, explorando essa situação praticamente até ao final. Sabendo que a sua equipa não é veloz, e que a defensiva do Porto se sente bem na zona central contra equipas mais "pesadas", decidiu colocar aquele "animal" constantemente colado aos nossos segundos defensores, criando-nos assim sérias dificuldades. Dessa forma, Maximov retirou o pivot da zona de Alexis e Daymaro (que lhe poderiam dar mais luta), e foi-o encostando a Rui Silva, Hugo Santos. Areia, Cuni ou Gustavo (mais frágeis e com muitas dificuldades em parar o russo). Numa situação dessas, temos duas hipóteses: ou ficamos todos atrás, tentando segurar um pivot fortíssimo ("virou" grande parte dos nossos jogadores, com a facilidade dum elefante a avançar por uma colónia de formigas, por diversas vezes), e deixamos mais espaço para o remate exterior (e havia ali uns quantos russos que rematavam com uma violência considerável); ou então somos obrigados a sair para condicionar o remate, sabendo que cada vez que a bola possa cair nas mãos do pivot, ou dá golo, ou livre de 7 metros. E foi neste dilema que Maximov nos colocou durante largos períodos do jogo, chegando inclusive a atacar com dois pivots de raíz em determinadas alturas.

Mas onde o jogo nos fugiu das mãos (literalmente) foi no decorrer da 2ª parte. Nos primeiros 15 minutos, contei pelo menos 7 situações em que recuperámos a bola na defesa, perdendo-a segundos depois, no contra-ataque apoiado, por maus passes. Sensivelmente metade das vezes, essa perda de bola resultou em golo dos russos. Ora, se estamos empatados, recuperamos a bola e podemos passar para a frente, mas afinal perdemo-la e ficamos um golo atrás, não vai tardar até que a cabeça comece a deixar de funcionar. É fundamental, num jogo de andebol, gerir bem os momentos de acelerar o jogo. Porque a maioria desses momentos tem de dar golo, de modo a ir ferindo o adversário. Nestes 15 minutos, em que estivemos melhor defensivamente, e onde Quintana entrou em modo "parede", devíamos ter conseguido virar o jogo, gerindo de forma mas tranquila as posses de bola nos 15 minutos finais.

O 2º momento determinante surgiu aos 24 minutos, em que estávamos com uma vantagem de um golo (27-26), e tivemos posse de bola para colocar dois golos de diferença no marcador. Aqui, um mau passe de Miguel Martins para a ponta (ele que provavelmente erraria 1 passe em 10 numa situação daquelas) retirou-nos essa possibilidade, e os russos empataram no ataque a seguir. Embora 2 golos de vantagem possa parecer coisa pouca num jogo de andebol, acreditem que faz toda a diferença a 5 minutos do final. Os russos iriam para o ataque seguinte com uma maior urgência de marcar golos e, possivelmente, isso jogaria a nosso favor. Novamente, entre os 27 e 28 minutos, uma perda de bola no ataque organizado, com um empate a 28 no marcador. Erros normais dum jogo de andebol. Erros que acontecem, mas que a este nível se pagam caros.

Pormenores, como essas perdas de bola, ou aquela defesa de Quintana que não saiu nos últimos 2 minutos, ou a lesão que condicionou Daymaro durante grande parte do jogo, ou .... Por vezes, nos pormenores, as coisas acabam por resolver-se a nosso favor, como em Presov. Outras vezes, a sorte não nos acompanha. 

Com Gilberto muito bem defendido, queria aproveitar para destacar a trajectória de crescimento de Gustavo e de Cuni, a cada vez maior certeza em Miguel Martins e Rui Silva, mas principalmente o jogaço protagonizado por António Areia. Nas palavras do ilustre Fernando Rocha "P*ta que pariu, oblá!". Que reforço incrível conseguimos para a nossa equipa!

Portistas, sintam-se orgulhosos desta equipa de andebol, de tudo o que tem conquistado nestes últimos anos no plano nacional, e a honra que tem trazido ao clube e ao país a nível internacional. Uma equipa de gurreiros, coesa, batalhadora, jovem mas madura, com jogadores a crescer a cada jogo que passa. que sua e sente aquela camisola como poucos o fazem. Uma equipa que joga sempre com garra e determinação, em casa ou fora, na Champions ou no campeonato, e que estou certo irá continuar a trazer alegrias a todos. Admirem os atletas das modalidades, que nunca precisam da motivação dos milhões, do glamour das tv's, para ter sede de vitórias; que conseguiram (cada modalidade à sua maneira) criar uma ligação entre clube e adeptos que, ao que parece, é a maior fonte da mística que tantos reclamam. A mística, meus caros, está nesta malta. A mística, amigos portistas, está à distância de atravessar uma rua, lá no mais pequeno dos Dragões. Por isso, continuem a estar presentes nos jogos de andebol, continuem a apreciar as capacidades destes rapazes, a apoiá-los incondicionalmente, porque eles merecem cada pedaço do nosso reconhecimento.

Um abraço,

Z


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Espaço Z - Tatran Presov vs FC Porto

Vitória muito importante, obtida no último sopro da partida, fora de portas, deixando em aberto a possibilidade de apuramento para a próxima fase da Champions de Andebol. Foi, apesar de tudo, uma vitória desnecessariamente sofrida face à evidente diferença de plantéis e de estilo de jogo.  Quer isto dizer que o Presov é uma equipa fraca? Obviamente, não. Seria equipa para lutar pelos 3 lugares cimeiros da classificação em Portugal. Mas nesta Champions, o FC Porto já provou estar um ou dois degraus acima de equipas como o Presov ou o Vojvodina, por exemplo.

No jogo de hoje, defrontámos um adversário forte a defender, contactando os nossos jogadores no espaço entre os 10m e os 7m sempre no "limite" do permitido. Pelo menos, tanto no limite quanto uma equipa moldava de arbitragem poderia permitir a uma equipa eslovaca, if you know what I mean... Se já é difícil jogar no Leste da Europa, acreditem que fica bastante mais difícil com duplas daquela zona.  
Já em termos ofensivos, trata-se duma formação que privilegia o remate exterior, com jogadores altos e "pesados", quase todos com pouca mobilidade e a denunciar muito as trajectórias para remate. Quero com isto dizer que, face às características físicas e técnicas dos laterais e do central, é fácil para uma defesa perceber quando vai ser o momento de finalização, porque os movimentos são semelhantes e mais fáceis de antecipar. 

Para contrariar uma equipa deste género, é fundamental defender bem, obrigar os adversários a rematar de bastante longe - porque esses remates são, teoricamente, mais fáceis de parar pelo guarda-redes - e aproveitar alguma lentidão na recuperação defensiva adversária para "matar" o jogo em contra-ataque. Já em ataque organizado, é a velocidade na circulação de bola, e no ataque aos espaços que poderá ser mais eficaz. Se do outro lado temos 4 ou 5 "muros" que gostam de "bater", temos que tentar obrigá-los a fazer o que não gostam: mover-se. 

Na 1ª parte, especialmente a partir dos 10 minutos, conseguimos fazer tudo isto relativamente bem. Houve algum desacerto na finalização (uma ou outra vez por mérito do bom guarda-redes adversário, mas também por algum demérito nosso), especialmente nos remates aos 6 metros, que podia ter acabado com o jogo logo na 1ª parte. Houve também alguma falta de agressividade defensiva nos primeiros 20 minutos, tendo os eslovacos conseguido rematar demasiadas vezes sem serem devidamente importunados (que é como quem diz, sem levarem uns socos valentes, como nos faziam quando éramos nós a atacar). Com o resultado em 13-8 a 4 minutos dos primeiros 30, era "obrigatório" termos chegado ao intervalo com maior vantagem no marcador. Faltou alguma paciência, e alguma inteligência na forma como o nosso ataque organizado decidiu trabalhar os últimos lances. Trabalhamos demasiado para o remate exterior (e com Kasal em campo, não se podia esperar outra coisa), quando devíamos ter tentado finalizações mais próximo da baliza, até mesmo para conseguir "sacar" alguma exclusão aos eslovacos.

A 2ª parte teve uns 10 minutos iniciais perfeitos, com um parcial de 4-1 a nosso favor, que colocou o resultado nuns - à partida - confortáveis 18-11. E depois... Bom, depois houve qualquer espécie de bebedeira colectiva, que nos poderia ter custado o jogo. Erros em barda, alguns pouco condizentes com jogadores do nível dos nossos. Muita sofreguidão no ataque organizado, que conduziu a falhas técnicas e, consecutivamente, perdas de bola perfeitamente escusadas, e muito desacerto defensivo - não só em termos de posicionamentos como de agressividade perante o adversário. 

Podemos queixar-nos que, a partir dos 10 minutos, entrámos numa fase de "vale-tudo" na defensiva contrária, que tornou a tarefa de atacar de forma mais profunda praticamente impossível, mas penso que nos pusemos a jeito. Com 7 golos no bolso, é a equipa que tem a vantagem que tem de gerir os tempos de jogo e que tem de saber ter o controlo emocional. Não podemos estar a jogar com guarda-redes avançado, e "entregar" a bola ao adversário para duas finalizações fáceis (sem o guarda-redes na baliza), num espaço de menos de 2 minutos. Tudo bem que a opção por utilizar um guarda-redes avançado é discutível, principalmente se usada de forma insistente, mas isso não esconde as incríveis falhas consecutivas do nosso ataque. Neste período de desacerto, nota negativa para Gustavo Rodrigues, a conseguir cometer mais falhas graves em 20 minutos do que no resto da época. 

Depois de termos conseguido acertar defensivamente, tenho de destacar 2 jogadores: Miguel Martins e Gustavo, por razões diferentes. Num final de jogo estonteante, foi o menino a colocar duas bolas  "redondinhas" nas mãos de Alexis, que deveriam ter decidido o jogo, não fosse a segunda oportunidade ter esbarrado no braço do guarda-redes adversário. Gustavo merecia levar 3 chicotadas por ter perdido uma bola, num passe mal medido para Alexis, a pouco menos de 1 minuto para o fim, e com o resultado em 23-24 a nosso favor. 

Contudo...



Quem tem Gilberto Duarte, tem o Mundo!

E, desta forma, pela enésima vez, Gilberto decidiu um jogo no último segundo, sacando um golo impossível da cartola.

Mais alguma concentração competitiva, mais acerto defensivo e um Dragão Caixa a rebentar pelas costuras serão importantes ingredientes para o decisivo encontro com os espanhóis do La Rioja. Porque apesar da derrota pesada da 1ª volta, acredito que temos uma equipa superior à deles. Esta equipa merece e tem qualidade para a próxima fase da Champions.

Um abraço,

Z